segunda-feira, 22 de julho de 2013

Por que você tem cachorro?

Aposto que você tem cachorro. Ou um gato. Ou um vaso com uma planta num canto da varanda. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Mesmo que você não tenha nada disso, aposto que você já teve um ursinho de pelúcia. Ou aposto ainda que nas férias você gosta de ir pra praia. Ou de pescar. Aposto!

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O dia já está pra raiar e chego cambaleante em casa. Tiro o tênis ainda na calçada e, de meias, vasculho meu bolso. Giro calmamente a chave fugindo do barulho da fechadura. Na ponta dos pés avanço sorrateiro na escuridão desviando dos móveis usando algum sentido que não é a visão. Quando começo a acreditar que sou imperceptível...

Os latidos do Max rasgam o silêncio. Acordaram todo mundo. Acordaram a vizinhança. Misson failed.

Nessa madrugada barulhenta me pergunto: porque eu tenho cachorro? Por quê!?

Perguntei isso quando Max roeu meu tênis novo. Sempre pergunto quando ele me acorda com lambidas na boca ou faz xixi em qualquer coisa minha que esteja no chão. Já me perguntei por que eu insistia em ter um aquário no meu quarto mesmo sendo difícil dormir com o barulho da bombinha me atormentando. Apesar dessas perguntas surgirem algumas vezes na cabeça das pessoas, quase todo mundo têm cachorro. Quase todo mundo têm gato, ou um aquário. Mesmo os mais relapsos costumam ter um vasinho com uma planta chocha num canto qualquer. Por quê?

A resposta parece simples, e na verdade é. Nós amamos coisas vivas. A natureza nos cativa, nos encanta. É bem provável que alguns de vocês tenham torcido o nariz quando leram essas frases. Você pode preferir um belo quarto de hotel ao invés de acampar numa barraca úmida, e pode também odiar mosquitos te picando e ter nojo de sapo. Mas ser assim não implica em não adorar a natureza, nossos hábitos e costumes contemporâneos nos levaram a ser assim. Nossa adoração pela natureza está acima dessas questões.

Nossa interação com o vivo é o primeiro parágrafo do livro da nossa história evolutiva. Aliás, é o prefácio desse livro. Nós surgimos e saímos da natureza para construirmos nossas cidades com nossas regras. Na verdade nunca saímos da natureza, simplesmente porque continuamos fazendo parte dessa imensa teia viva. A velha lembrança dum passado que não vivemos é o que nos faz sentir bem quando brincamos com um cachorro, ou quando descobrimos um passarinho novo, ou mesmo quando acordamos de manhã com o barulho calmo da chuva. Edward O. Wilson - um dos maiores biólogos que já pisaram nesse mundo - chamou isso de biofilia.

Mais incrível que um submarino de metal, é um peixe de carne e osso.

Um Rolex ou um BWM podem ser bons consolos e fonte de alegria, não discordo disso. Mas essa adoração ao estático é resultado só de consequências culturais e sociais. Tente trocar seu Rolex pelo cocar de um índio que não tem hora pra acordar. Ambos são mimos sociais, com funções muito parecidas, mas em contextos sociais bastante distintos. Agora repare como uma criança indígena e uma criança da cidade brincam de um jeito bem parecido com um cachorro.

Essa nossa admiração natural pela natureza vai muito além de termos um companheiro canino para dormir no pé da cama. Após os atentados de 11 de setembro, o número de visitas a parques e reservas naturais nos Estados Unidos aumentou incrivelmente (www.ens-newswire.com/ens/sep2002/2002-09-11-06.html), mostrando o potencial reconfortante e de promover o bem-estar que a natureza tem. Alguns estudos mostram também que passar alguns poucos dias imerso na natureza aumenta nossa criatividade e poder de inovação (news.nationalgeographic.com/news/2013/06/130628-richard-louv-nature-deficit-disorder-health-environment/e plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0051474). Nós dependemos  e gostamos das coisas vivas, simplesmente porque somos apenas mais uma delas. 

Bem, a natureza nos cativa, mesmo que algumas vezes não percebamos isso.
Por isso desenhos animados para crianças geralmente têm animais como protagonistas (e não dois Rolex discutindo sobre a bolsa de valores),
Por isso toda criança tem um ursinho de pelúcia,
Por isso 99,4% das mulheres adora Marley & Eu (Sem contar os 90% dos homens que escondem que gostam),
Por isso 99,4% das mulheres chora quando o cachorro vai esperar o Richard Gere na estação em ‘Sempre ao seu lado’ (Sem contar os 90% dos homens que seguram o choro nessa hora),
Por isso uma graminha no quintal é sempre bem vinda,
Por isso praias são tão disputadas nas férias,
Por isso a foto de um panda filhote derruba qualquer face sisuda,
Por isso todo consultório médico tem um quadro com uma paisagem (geralmente bem cafona...)
Por isso minha vó tem um pé acerola no quintal e uma orquídea na janela da cozinha,
Por isso chamam o cachorro de melhor amigo do homem.

Richard Gere e seu amigo cachorro em 'Sempre ao seu lado'.
Eu juro que não chorei!

Nós temos uma ligação muito forte com as coisas vivas. Acho que esse é o argumento mais arrebatador para conservar a natureza. Afinal, existe argumento melhor do que aquele que, simplesmente e convincentemente, não precisa de uma justificativa racional?

Esse argumento é conhecido como valor intrínseco da biodiversidade.  Entretanto, mostrar essa face da importância da natureza de um modo pragmático (e quadrado) é uma tarefa bastante complexa... E é importante ter em mente que muitas vezes falar em números e mostrar papéis é único caminho para convencer tomadores de decisão sobre a importância da conservação. Mas, lembre-se que mesmo os políticos ou donos de grandes empresas tem um buldogue inglês. Ou gato persa. Ou gostam de ir a uma vinícola. Ou passam as férias em uma praia em Ibiza...

Quanto a vocês terem perdido a aposta no começo da crônica, guardem o dinheiro para comprar um brinquedo novo para seu cachorro. Ele merece.

19 comentários:

  1. Raul! tava com saudade de ler suas crônicas já..
    gostei muito dessa!

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    1. Oi karlinha!
      que bom que você gostou, fico feliz!
      saudade de você por aqui

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  2. Se superando cada vez mais ein primo?
    Eu estava imaginando algo poético sobre o amor incondicional aos caninos, sobre o fato de que eles não falam, mas se comunicam de forma muito eficaz com as abanadas de rabo, lambidas, latidos e afins.
    Mas não esperava por essa do amor às coisas vivas. Realmente. Não troco um fim de semana enfurnada no mato por um hotel cinco estrelas de jeitoooo nenhum!!! E hoje mesmo eu tava rindo da minha idiotice ao abraçar a Lua (cão) com um casaco preto... Mas até pelo de cachorro deixa a gente besta =)

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  3. Oi prima! que bom que você gostou!
    elogios duma escritora dessas não se ganha todo dia!
    beijo e bora comer uma pizza dia desses?

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  4. Grande Raul,
    Muito consistente e denso de informações seu texto biofílico. Espero poder interagir cada vez mais com vc na tarefa de levar a públicos amplos nossa ligação inata com o mundo natural. Abraços naturalísticos, José Sabino

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    1. Oi Sabino!
      Muito obrigado pelo comentário, fico lisonjeado.
      Aproveito para te agradecer por me fornecer uma ótima base conceitual e prática sobre biofilia em nossas reuniões e conversas informais. Muito do conteúdo desse texto foi pensado em cima dessa base.
      E vamos em frente nessa empreitada de divulgação do que há de mais incrível nesse mundo, a natureza!
      Abraço!

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  5. Um dos seus melhores textos!
    Parabéns!
    Meggie

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  6. Muito bom Raul!! Adoro seus textos!!
    Natasha

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    1. Oi Natasha! Que bom que gostou, obrigado mesmo!

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    1. Obrigado Ana! É muito bom ter o retorno de quem lê as crônicas! Abraço!

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  8. Muito bom, Raul! Metáforas são os melhores instrumentos para atingir os corações alheios... Ao menos para quem entendeu que o texto não é (só) para quem gosta de animais de estimação. Pena que tocar corações, assim como um filme brilhante que acabamos de ver no cinema, não traz mudanças eficazes, afinal o dia amanhece e o mesmo de sempre recomeça... Agora, enfia a mão no bolso do outro pra vc ver! Até os mais pacatos reagirão como cães defendendo sua comida, ao exemplo das manifestações atuais. O capitalismo é global e nele vivemos. Ele ainda não chegou ao valor intrínseco da biodiversidade, e não sei se chegará. Pelas mudanças almejadas, inexoravelmente precisará.
    Grande abraço e parabéns!

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    1. Grande George! Concordo com você cara. O valor intrínseco sempre está lá, mas as vezes fica soterrado. Valeu George, abraço!

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