segunda-feira, 22 de julho de 2013

Por que você tem cachorro?

Aposto que você tem cachorro. Ou um gato. Ou um vaso com uma planta num canto da varanda. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Mesmo que você não tenha nada disso, aposto que você já teve um ursinho de pelúcia. Ou aposto ainda que nas férias você gosta de ir pra praia. Ou de pescar. Aposto!

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O dia já está pra raiar e chego cambaleante em casa. Tiro o tênis ainda na calçada e, de meias, vasculho meu bolso. Giro calmamente a chave fugindo do barulho da fechadura. Na ponta dos pés avanço sorrateiro na escuridão desviando dos móveis usando algum sentido que não é a visão. Quando começo a acreditar que sou imperceptível...

Os latidos do Max rasgam o silêncio. Acordaram todo mundo. Acordaram a vizinhança. Misson failed.

Nessa madrugada barulhenta me pergunto: porque eu tenho cachorro? Por quê!?

Perguntei isso quando Max roeu meu tênis novo. Sempre pergunto quando ele me acorda com lambidas na boca ou faz xixi em qualquer coisa minha que esteja no chão. Já me perguntei por que eu insistia em ter um aquário no meu quarto mesmo sendo difícil dormir com o barulho da bombinha me atormentando. Apesar dessas perguntas surgirem algumas vezes na cabeça das pessoas, quase todo mundo têm cachorro. Quase todo mundo têm gato, ou um aquário. Mesmo os mais relapsos costumam ter um vasinho com uma planta chocha num canto qualquer. Por quê?

A resposta parece simples, e na verdade é. Nós amamos coisas vivas. A natureza nos cativa, nos encanta. É bem provável que alguns de vocês tenham torcido o nariz quando leram essas frases. Você pode preferir um belo quarto de hotel ao invés de acampar numa barraca úmida, e pode também odiar mosquitos te picando e ter nojo de sapo. Mas ser assim não implica em não adorar a natureza, nossos hábitos e costumes contemporâneos nos levaram a ser assim. Nossa adoração pela natureza está acima dessas questões.

Nossa interação com o vivo é o primeiro parágrafo do livro da nossa história evolutiva. Aliás, é o prefácio desse livro. Nós surgimos e saímos da natureza para construirmos nossas cidades com nossas regras. Na verdade nunca saímos da natureza, simplesmente porque continuamos fazendo parte dessa imensa teia viva. A velha lembrança dum passado que não vivemos é o que nos faz sentir bem quando brincamos com um cachorro, ou quando descobrimos um passarinho novo, ou mesmo quando acordamos de manhã com o barulho calmo da chuva. Edward O. Wilson - um dos maiores biólogos que já pisaram nesse mundo - chamou isso de biofilia.

Mais incrível que um submarino de metal, é um peixe de carne e osso.

Um Rolex ou um BWM podem ser bons consolos e fonte de alegria, não discordo disso. Mas essa adoração ao estático é resultado só de consequências culturais e sociais. Tente trocar seu Rolex pelo cocar de um índio que não tem hora pra acordar. Ambos são mimos sociais, com funções muito parecidas, mas em contextos sociais bastante distintos. Agora repare como uma criança indígena e uma criança da cidade brincam de um jeito bem parecido com um cachorro.

Essa nossa admiração natural pela natureza vai muito além de termos um companheiro canino para dormir no pé da cama. Após os atentados de 11 de setembro, o número de visitas a parques e reservas naturais nos Estados Unidos aumentou incrivelmente (www.ens-newswire.com/ens/sep2002/2002-09-11-06.html), mostrando o potencial reconfortante e de promover o bem-estar que a natureza tem. Alguns estudos mostram também que passar alguns poucos dias imerso na natureza aumenta nossa criatividade e poder de inovação (news.nationalgeographic.com/news/2013/06/130628-richard-louv-nature-deficit-disorder-health-environment/e plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0051474). Nós dependemos  e gostamos das coisas vivas, simplesmente porque somos apenas mais uma delas. 

Bem, a natureza nos cativa, mesmo que algumas vezes não percebamos isso.
Por isso desenhos animados para crianças geralmente têm animais como protagonistas (e não dois Rolex discutindo sobre a bolsa de valores),
Por isso toda criança tem um ursinho de pelúcia,
Por isso 99,4% das mulheres adora Marley & Eu (Sem contar os 90% dos homens que escondem que gostam),
Por isso 99,4% das mulheres chora quando o cachorro vai esperar o Richard Gere na estação em ‘Sempre ao seu lado’ (Sem contar os 90% dos homens que seguram o choro nessa hora),
Por isso uma graminha no quintal é sempre bem vinda,
Por isso praias são tão disputadas nas férias,
Por isso a foto de um panda filhote derruba qualquer face sisuda,
Por isso todo consultório médico tem um quadro com uma paisagem (geralmente bem cafona...)
Por isso minha vó tem um pé acerola no quintal e uma orquídea na janela da cozinha,
Por isso chamam o cachorro de melhor amigo do homem.

Richard Gere e seu amigo cachorro em 'Sempre ao seu lado'.
Eu juro que não chorei!

Nós temos uma ligação muito forte com as coisas vivas. Acho que esse é o argumento mais arrebatador para conservar a natureza. Afinal, existe argumento melhor do que aquele que, simplesmente e convincentemente, não precisa de uma justificativa racional?

Esse argumento é conhecido como valor intrínseco da biodiversidade.  Entretanto, mostrar essa face da importância da natureza de um modo pragmático (e quadrado) é uma tarefa bastante complexa... E é importante ter em mente que muitas vezes falar em números e mostrar papéis é único caminho para convencer tomadores de decisão sobre a importância da conservação. Mas, lembre-se que mesmo os políticos ou donos de grandes empresas tem um buldogue inglês. Ou gato persa. Ou gostam de ir a uma vinícola. Ou passam as férias em uma praia em Ibiza...

Quanto a vocês terem perdido a aposta no começo da crônica, guardem o dinheiro para comprar um brinquedo novo para seu cachorro. Ele merece.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Por que do UFC?


O mundo tem caminhado pelo ‘sweetest way’. Radicais de extrema-direita ou extrema esquerda estão em extinção. Comerciais de televisão mostram crianças abraçando as mães, crianças brancas abraçando negras, mulheres liderando grandes empresas. Isso é reflexo de um novo panorama do mundo nas últimas décadas. Sim, o senso comum caminha numa estrada mais amistosa e coerente hoje em dia do que caminhava no passado. Se discordar de mim, pergunte para seu avô sobre isso. Até 1994 existiam bebedouros para brancos e outros para negros na África do Sul. O mundo mudou pra melhor em pouco tempo.

 O mundo caminha por um 'sweetest way'


Ofensas, violência, crueldade, preconceito, bullying - todas essas demonstrações do nosso potencial agressivo e impiedoso vêm sendo coibidas nas últimas duas ou três gerações humanas, o que mudou radicalmente nosso perfil moral e o senso comum. Por sinal, uma mudança cultural fortíssima em curta escala de tempo. É evidente que todas essas demonstrações de nosso lado negro da força continuam existindo - inclusive dentro de cada um de todos nós - mas tudo de uma maneira muito mais tênue e, digamos, discreta.

Sábado à noite, estava um bar qualquer jogando papo fora e cerveja dentro. Muitas pessoas nas mesas em volta faziam a mesma coisa. Tudo comum, normal. De repente o bar silencia. Conversas cessam, garçons param de servir os clientes e de fazer as tradicionais e inconvenientes piadinhas sem graça.

Começa mais uma noite de UFC. Dois caras tatuados de bermuda se batem. Galvão Bueno se esgoela com sua incrível capacidade de colocar emoção em qualquer coisa, até no grande prêmio de Mônaco na Fórmula 1. As pessoas vibram com os socos e ponta pés. Vibram como se fosse um gol do time do coração, ou quando encontram 10 reais esquecidos no bolso da calça. Uma finalização é o auge da noite.



Lutas sempre geraram grande comoção popular e dinheiro. São muitos os exemplos de grandes lutas de boxe em cassinos de Las Vegas que envolveram alguns socos, milhares de expectadores e milhões de dólares. Eu era apenas uma criança, mas me lembro bem do impacto que o cruzado de Holyfield causou no mundo ao derrubar Tyson. Acho que quem mais sentiu o impacto foi mesmo o Tyson, mas o mundo estremeceu em 1996. 

Holyfield x Tyson, 1996


Hoje o glamour das lutas de boxe das últimas décadas foi substituído pela versatilidade e massificação do UFC. Crianças têm bonés do UFC, existem reality shows de UFC, lutadores de UFC fazem comerciais do Magazine Luiza, e minha vó sabe o que é UFC.

Qual a relação entre um cara que bate nos outros
e a frase "vem ser feliz"?

Como? Como, em tempos que o mundo caminha para um senso comum pacífico e tranquilo, um esporte violento e visualmente impactante consegue atrair tantos fãs alucinados pelas lutas? (Não venham me dizer que UFC não é violento. Sim, é. Se UFC não for um esporte violento qual será?).

A resposta repousa numa história muito mais longa que a luta entre Tyson x Holyfield ou a revolução francesa. Sempre brigamos. Em nosso passado hominídeo não muito distante, brigávamos por fêmeas, por cavernas, por comida, por água, por religião ou por pura diversão. Na verdade ainda hoje brigamos por isso tudo, mas dum jeito mais velado e, geralmente, não físico. Uma vez briguei porque um moleque besta lambeu meu sanduíche na hora do recreio. Na natureza as coisas não são muito diferentes, mas são um pouco mais coerentes - não há briga por religião ou por lambidas no sanduíche  Peixes brigam, gorilas brigam, passarinhos brigam, besouros brigam, mariposas brigam. A briga têm um papel fundamental na evolução de diversos grupos de animais, por isso tantos chifres, espinhos, comportamentos agressivos, músculos e esqueletos que parecem armaduras.

Ready? Fight!
Cara, to avisando, se você lamber minha noz...

De algum modo uma briga nos traz uma memória evolutiva distante, uma lembrança dum passado longínquo, mas que ainda está escrito em nossos genes.

Pessoalmente não me sinto muito confortável vendo um cara de 200 kg socando a cabeça de outro caído no chão. Mas fico realmente impressionado com o carisma popular que o UFC conquistou, ainda mais em tempos nos quais o mundo caminhava pelo ‘sweetest way’. Então, quando se perguntar por que você não consegue desgrudar os olhos da televisão enquanto um cara soca o rosto de outro - ou porque tanta gente consegue gostar disso - se lembre de que a briga está costurada em nossa história evolutiva muito antes de andarmos sobre duas pernas.

domingo, 12 de maio de 2013

O elo perdido


Após um período ausente e de expiração, volto a apertar algumas teclas do meu computador.

Estou começando a achar certa utilidade em filas. Já é o segundo insight que tenho nelas. Talvez essa seja uma situação ideal para parar e pensar na vida, já que não há nada pra fazer. Filas hoje são minha terapia (não que eu goste de terapia. Ou de filas).

Bem, estava eu na fila do banco, esperando pra ver o tamanho do estrago que eu havia feito em meu limite. Havia um senhor careca na minha frente que, elegante como um lorde, tirava cera do ouvido com a chave do carro. Achei engraçado porque parecia que ele estava dando partida na própria cabeça.

Então pensei, o que as pessoas fazem em filas?

Olhei pra frente do lorde da cera de ouvido e vi pessoas de cabeça baixa. Olhei pra trás de mim (é incrível como não ser o último da fila é acalentador...) e vi também quase todas as pessoas de cabeça baixa. Tirando o senhor-cabeça-de-ignição, todos da fila estavam olhando para o celular! Hoje em dia ter um celular nos permite ter quase tantos poderes quanto o homem de ferro: você pode falar com alguém distante, ouvir alguém distante, trabalhar, ver, guardar, aprender, interagir, apreciar, jogar o que quiser e por ai vai. Quando eu era criança achava incrível como um canivete tão pequeno podia ter tantas funções. Mal eu sabia que poucos anos depois inventariam algo tão funcional e que centralizasse tantas funções diferentes e práticas quanto um celular. Mas lembrem-se, um celular, ao contrário do meu canivete de criança, ainda não pode cortar nada ou abrir uma lata de sardinha. Por enquanto.

Mais funções que um canivete, mas - ainda - sem
conseguir abrir uma lata.

Hoje essa caixinha mágica com uma tela brilhante é quase uma extensão de nossos corpos. Se a ficção científica pensou a algumas décadas atrás em criar quimeras metade orgânicas e metade mecânicas, acho que hoje somos algo bem próximo a isso. Mas o tema dessa crônica não são os celulares, nem filas, nem cera de ouvido. É biodiversidade.

Uma das funções mais usadas nos celulares é a câmera fotográfica. Repare quantas fotos existem no facebook de pessoas no espelho do banheiro segurando um celular. Fora isso, a possibilidade de registrar imagens e vídeos a qualquer momento através de uma câmera de celular levou ao crescimento exponencial de vídeos com pessoas caindo, falando coisas polêmicas ou dançado bêbadas em cima de mesas. Bem, mas essa capacidade que as câmeras de celulares têm de monitorar qualquer coisa a qualquer hora também tem um papel importante.

iNaturalist: uma iniciativa para monitorar a biodiversidade
a partir de ciência cidadã.
Câmeras fotográficas, especialmente as de celulares, são ferramentas incríveis para conservação da biodiversidade. O iNaturalist (www.inaturalist.org) é uma iniciativa global para monitoramento da biodiversidade que se baseia na ideia de que qualquer pessoa pode registrar suas observações sobre a natureza, e que cientistas e gestores podem usar essas informações para monitorar mudanças na biodiversidade, trazendo assim um benefício coletivo. Essa vertente da ciência vem sendo chamada de ciência cidadã. Na prática, depois de fazer um cadastro rápido na página do iNaturalist, você pode registrar todas as formas de vida que você observar no seu dia-a-dia, de uma formiga na calçada até uma arara gritando na sua janela. Basta tirar uma foto de seu celular (ou câmera fotográfica), colocá-la no site e indicar onde você tirou a foto (pode ser a cidade, ou as coordenadas geográficas da foto). Fazendo isso você se torna mais um dos muitos olhos (ou olhos por trás dos celulares) que monitoram a biodiversidade global. Essas informações inseridas por pessoas comuns alimentam uma grande base de dados que qualquer pessoa pode ter acesso, ou seja, ciência feita pela sociedade, para a sociedade.

Qualquer um pode ser um dos olhos da biodiversidade.

Se você não sabe qual a espécie, ou o grupo taxonômico que você registrou na sua foto, você pode pedir ajuda para identificação por outros membros da comunidade. Isso permite a interação com outros ‘olhos da biodiversidade’ dos mais diversos locais do mundo. Além disso, o site conta com informações muito claras sobre biologia, ecologia e comportamento sobre a natureza, tudo isso em uma interface amigável e extremamente intuitiva. É possível também baixar o aplicativo para celular do iNaturalist e registrar no site, quase que instantaneamente, sempre que você fotografar algum ser vivo qualquer passando na sua frente.

O iNaturalist é apenas uma das grandes iniciativas com a ideia de ter a contribuição de cidadãos comuns como força motriz da ciência. Existem muitas outras iniciativas para monitoramento de grupos específicos, como aves (http://www.bto.org/), fungos (http://www.mushroomobserver.org), plantas (http://protea.worldonline.co.za) e até mesmo estrelas – não do mar, as do céu mesmo – (http://www.galaxyzoo.org/).


Apesar de algumas críticas coerentes sobre o potencial real de contribuição da ciência cidadã, acho que esse é um caminho unificador para a ciência. Na teoria, a sociedade fornece a matéria-prima para a ciência - problemas e questões -, e, muitas vezes, financia a busca por respostas. Já a ciência tenta buscar soluções para essas perguntas, e deve devolver para a sociedade respostas. Apesar dessa situação parecer uma troca bastante justa e lógica, na prática existe um abismo enorme entre o que cientistas fazem e o que chega para a sociedade, ou, em outras palavras, as respostas que chegam para as perguntas e problemas de minha vó, por exemplo. Acredito que a ciência cidadã, movida por nosso interesse natural e intrínseco pela biodiversidade, pode ser o elo colaborativo que faltava para unir ciência da biodiversidade e sociedade definitivamente.

A melhor definição que eu já li sobre ciência é a seguinte: “ciência é a maior obra coletiva de todas”. E, se assim for, por que não contar com todos nós, e nossos celulares, para ajudar nessa grande obra coletiva?

Bem, agora chegou minha vez de usar o caixa eletrônico. Mas, depois dessa fila terapêutica, meu saldo negativo é só um detalhe.

domingo, 17 de março de 2013

O grande palco

Eu tinha nove anos e meu objetivo era apresentar um trabalho sobre os planetas da Via Láctea. Minha sala devia ter uns 15 alunos. Me lembro pouco das feições dos meus colegas, lembro mais das manias deles, como o cara que comia terra e a menina que espirrava umas trinta vezes seguidas e sempre fazia as aulas pararem. Para uma criança de nove anos um trabalho sobre planetas é algo tão grandioso quanto uma figurinha do Ronaldo na época. Eu tremia, suava e conseguia (ou imaginava conseguir) escutar as engrenagens da minha cabeça rodando sem parar. O papel almaço com minhas escritas estava molhado com meu suor, e os planetas desenhados em canetinha começavam a borrar.


Uma das grandes coisas da vida aos nove anos.
(Notem que Ronaldo ainda pesava 75 Kg...)

Hoje em dia vejo que minha professora provavelmente estava pensando nas contas pra pagar e torcendo para que eu acabasse logo aquele blá blá blá. Além disso, é provável que meus colegas estivessem com a cabeça em outros planetas – especificamente os meninos pensavam em figurinhas da copa ou na playboy da Débora Secco (os mais precoces) e meninas em chiquititas e maquiagem. Mas na época a apresentação sobre os planetas era meu discurso de presidente da república da terceira série.


Meu trabalho de planetas não existe mais. Acho que meu suor corroeu ele.
Então peguei emprestado esse da Mariana.

O público nos dá medo. A imagem que vendemos de nós mesmos para o mundo fica ameaçada quando estamos na frente de muitas pessoas. Por isso temos reações estranhas, suamos, gaguejamos, mexemos desesperadoramente as mãos ou ficamos congelados.

Imagine um auditório cheio com todos seus amigos, mais aqueles pseudoamigos e ainda aqueles só conhecidos, ou conhecidos de conhecidos seus. Em alguns casos podemos incluir até os inimigos nessa não tão seleta plateia. É muita gente certo? Agora, imagine você no meio dessa plateia. Num certo momento, você se levanta do lugar que está sentado, sobe no palco e diz o que você está pensando para toda essa plateia. Então, todos da plateia podem aplaudir suas palavras ou simplesmente permanecer em silêncio. Eles ainda podem divulgar o que você falou para outras pessoas que você nunca viu, ouviu, cheirou, tocou (ou provou). Assustador não? Você teria essa coragem, essa autoconfiança?

E ai, vai encarar?

Bem, muito provavelmente você faz isso todos os dias. Substitua o auditório físico que você imaginou por um virtual e, voilà, temos o Facebook.

Tudo que é dito - ou, mais precisamente, escrito - no Facebook tem uma boa chance de ser lido e julgado por muitas pessoas. É claro que você não está dizendo nada cara a cara com a multidão de seus ‘amigos’, mas lembre-se que elas poderão ler suas palavras no computador do quarto, no notebook na sala, ou no celular no meio da aula.  O potencial de divulgação das redes sociais é algo inimaginável, incrível, mas assustador.

Bem, por hoje é isso. Agora, #Partiu soneca!

Biólogo no Google: “você quis dizer...”


Não existe melhor jeito para ter um panorama sobre o que o mundo acha sobre alguma coisa do que simplesmente escrever o nome dessa coisa na barrinha branca do Google. É tão bom que o Google até te corrige se você escrever errado! Ainda melhor e mais impactante é olhar diretamente o que o Google imagens tem a nos mostrar.

Intrigado com o que o mundo acha de nós biólogos, resolvi digitar minha profissão no Google e procurar por imagens. Por favor, os que tiverem paciência, façam esse exercício e confiram os resultados. A primeira coisa que me chama a atenção é o grande número de desenhos (ou caricaturas?) ou fotos de bichos e plantas. Por que tão poucas fotos de biólogos trabalhando?

Entre as muitas imagens, a mais emblemática pra mim é essa:

Uma das visões do biólogo que o mundo tem.


Vou tentar descrevê-la sobre o meu ponto de vista. Bem, vejo um cara estranho. Usa uma camiseta amarela e uma calça azul. Na verdade ele parece um carteiro tentando entregar cartas na floresta. Ele olha para cima com uns binóculos (que tem dois olhinhos nas lentes) enquanto é observado por um esquilo, uma paca, uma borboleta e uma abelha. E também por uma flor alienígena.

Onde ele está? Está no mato. Mas um mato sem árvores, só com uns arbustos e sem árvores. Na verdade deve haver uma árvore de noz por perto, já que o esquilo está segurando uma.

O que ele está fazendo? Ele pode estar observando pássaros. Biólogos que trabalham com pássaros, ou ornitólogos, geralmente andam com uns binóculos e têm o pescoço dolorido de tanto olhar para cima. 

Mas ele está trabalhando? Nem se ele for carteiro. Acho que se um ornitólogo for para campo de amarelo, ele no máximo verá um bem-te-vi. Aprendi com meu amigo Thiago Breda que ornitólogos trabalham em campo não somente com uns bons binóculos, mas também com roupas discretas ou camufladas, guia de campo, caderneta de anotações, boa câmera fotográfica, uma mochila com mantimentos, perneiras resistentes (afinal quem olha para o céu não vê cobra) e um banquinho portátil para descansar as pernas e o pescoço. Definitivamente, ele não parece estar trabalhando. Talvez seja um carteiro que, cansado de correr de cachorros, começou a gostar de observar aves.

Não quero parecer chato ou cricri criticando assim esse simples desenho. Afinal, é só um desenho, uma caricatura. Mas o desenho é a forma mais antiga de representar o mundo. E talvez esse simples desenho resuma bem a nossa busca de identidade como profissão, não como hobby.

domingo, 3 de março de 2013

A natureza de uma tragédia


Estou na fila pra comprar uma água de coco no calor maiúsculo de Campo Grande. O sol cozinha meus miolos como mandioca num panela de pressão. Sinto-me incomodado por alguns poucos minutos por que sou o último de uma fila dumas dez pessoas. É sempre ruim ser o último. Mas uma senhora com uma criança ainda pequena no colo logo chega e toma meu ingrato lugar de último da fila.

Eis que um grupo barulhento de periquitos do encontro amarelo (Brotogeris chiriri) passa por cima de nossas cabeças. Durante aqueles breves e barulhentos segundos todos da fila esquecemos que estávamos esperando a vez de pegar a água de coco enquanto xingávamos o próximo da fila, o último da fila, o tiozinho que furava o coco, o coco, o sol e qualquer coisa que estivesse próxima. Nos esquecemos para contemplar aquele grupo verde e barulhento. É incrível essa capacidade que as coisas belas têm de nos transportar de uma situação cotidiana para um momento de contemplação, quase uma meditação. E, mesmo os quadros de Monet sendo fortes candidatos, não há coisa com maior potencial para isso que a natureza.

Pois bem, passaram os periquitos. E a mãe logo atrás de mim querendo distrair a criança daquela monótona fila disse: “- Olha! Os amiguinhos periquitos voam juntos!”. A criança continuou com a cara emburrada de quem espera numa fila debaixo do sol. Apesar de não ter surtido efeito para a criança, essa frase da senhora botou meus miolos de mandioca cozidos pelo sol pra funcionar.

Na natureza muitos animais formam grupos. Peixes nadam em cardumes, bandos de passarinhos cruzam os céus, leões têm seus grupos sociais, formigas se misturam freneticamente em colônias, e nós usamos o facebook. Mas seriam eles ‘amiguinhos’?

Alguns animais formam grupos para aumentar suas chances de continuar vivos, não necessariamente porque são amigos. Por exemplo, imagine que você é um pequenino peixe no meio do oceano atlântico cheio de predadores com dentes maiores que você. Você sozinho, no meio de um oceano gigante e cercado por predadores famintos não parece uma situação muito agradável.  Já você, nadando do lado de milhares de ‘amiguinhos’ idênticos parece mais agradável certo? Se um predador achar o grupo, por que ele vai escolher justamente você se existem tantos ‘amigos’ parecidos do seu lado? A sua chance de ser comido fica cada vez menor conforme seu grupo fica maior. Ao mesmo tempo, na hora de comer, você e seus amigos peixinhos podem atacar um peixe muito maior se fizerem isso em grupo, enquanto que sozinho você pode apenas comer zooplancton com gosto de milho Grupos fazem isso, passam segurança – ou talvez autoconfiança - aos membros.

Por que justamente eu? Coma meu amigo!


Como somos parte da natureza - apesar de esquecermos ou nem considerarmos isso frequentemente – grupos funcionam de um modo parecido para nós macaquinhos pelados da coluna reta. Para nós grupos podem ser os colegas de trabalho ou da igreja, a família, a torcida de um time, o clube de colecionadores de botões ou os Emos. Grupos nos fazem grandes, nos fazem parte de algo maior, mais forte e menos vulnerável.  Por outro lado, grupos nos fazem ser só mais um, mais uma pequena parte igual a muitas outras que fazem o grupo funcionar como algo grandioso.


Vinte de fevereiro, Corinthinas x San José, Oruro, Bolívia. Um torcedor se sentindo grande e soberbo como o grupo, mas com a segurança de ser um anônimo, de ser apenas mais um no meio de milhares, disparou um sinalizador náutico na direção da torcida adversária.  O sinalizador viajou 30 metros e parou.

Um garoto boliviano, Kevin Beltran Espada, de 14 anos morreu. O sinalizador de navio com 20 cm atravessou seu olho e perfurou seu crânio.

E essa situação hedionda e certamente grande parte das inúmeras tragédias que nos acompanhamos nas últimas décadas no futebol mundial são fruto da imoralidade por vezes associada ao ‘efeito de grupo’. Indivíduos exaltados dentro do grupo tomam decisões imorais, amparados pela força do grande grupo e pelo caráter anônimo que têm no meio de uma multidão de ‘iguais’.

Sozinhos no quarto, no meio de um cardume, ou na torcida de um jogo de futebol nossa moral tem que continuar de pé. Nossos valores, que, na verdade, não são regidos por leis humanas ou regras, mas pelo simples sentimento do que é certo, devem sempre sobrepujar a situação. Se indivíduos do grupo mantiverem sua moral e seus princípios, o grupo funciona moralmente.

Indivíduos em um grupo: iguais mas diferentes

Não devemos esquecer que o grupo, por mais grandioso e imponente que seja, é formado por indivíduos comuns, que pensam e agem individualmente. Se o grupo ganha força e só existe pela comunhão de indivíduos com um objetivo em comum, o grupo deve responder por seus anônimos nobres membros.


Bom, é chegou vez de pedir minha água de coco. A fila andou até rápido hoje. Obrigado periquitos.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Qual o preço da liberdade?


Sempre que escrevo começo enrolando e depois chego ao ponto. Dessa vez começarei direto ao ponto, e depois enrolarei: O preço da “liberdade” é 10U$.

(Agora começa a parte que eu enrolo) Nunca entendi muito bem Matrix. É um filme legal, cheio de efeitos e tals, mas acho meio confuso. Meu irmão já tentou me explicar algumas vezes, mas sempre no meio da explicação me pego pensando em outra coisa do tipo: "Nabuconosor? Acho que meu professor de história falava disso... Será que ele gostava de Matrix? Será que ele entedia Matrix e eu não?"

Oi?
Mas acho que a ideia principal do filme (tentei ler o resumo na Wikipédia, mas não entendi também...) é que as máquinas dominam os humanos. É uma ideia bastante cinematográfica não? É claro que somos dependentes das máquinas pra muitas coisas essenciais à vida moderna – como aquelas raquetinhas chinesas de matar pernilongo - mas elas nos dominarem já é demais! Não consigo me imaginar aparrando a grama do quintal com os dentes enquanto recebo ordens de um cortador de grama autoritário.

Mas, dia desses, li uma coisa que me deixou perplexo. Existe um software de computador chamado freedom (ou ‘liberdade’). Esse programa faz uma coisa genialmente tosca: ele cancela sua internet. Exato, cancela (você que tem internet em Campo Grande não pense que esse programa está instalado no seu computador, a internet é naturalmente ruim mesmo). No freedom basicamente você escolhe quanto tempo quer ficar sem internet, e o programa não deixa você acessar nenhum site nesse período. Para desfrutar dessa incrível capacidade do programa, é só entrar nesse site aqui macfreedom.com/, pagar U$10 e fazer o download do freedom. A promessa do programa é que ficar sem internet permite que você se concentre melhor em suas atividades profissionais e se torne mais produtivo. Mais de 300.000 mil pessoas - muitas dessas pesqusiadores e escritores - já compraram o freedom (o que dá um retorno de mais de 3 milhões de dólares pra seus criadores!) e nesse momento desfrutam de um relaxante e produtivo período pago sem internet.

Liberdade?

Bem, particularmente prefiro gastar esses U$10 em duas latas de batata Pringles e um daqueles chicletes de bolinhas coloridas no Paraguai. Se eu quiser ficar sem internet por um tempo, é só arrancar o cabo do computador ou desligar a Wi-Fi. Ou ir trabalhar na UFMS com seu incrível sistema sem-fio, mas sem-internet! Ou simplesmente não abrir meu navegador. E não gasto nenhum centavo em nenhuma dessas opções. A que ponto chegamos?! Pagamos para não usar a internet! Estaríamos nós - a suprema espécie na nossa cabeça antropocentrista - sendo dominados pela internet?


Obrigado por nos livrar da internet! Tome U$10!

Na verdade as máquinas (ou a internet) não nos dominaram. O cara que inventou o tal do freedom, e que já faturou mais de 3 milhões de dólares com isso, é que dominou a arte de domar as pessoas, usando a maior das nossas fraquezas modernas. O freedom é um tipo de clínica de reabilitação virtual pra quem não consegue trabalhar tendo a internet como diabinho que toda hora cutuca nossa concentração. Psicólogos desempregados, que tal abrir uma clínica pra reabilitação de internet? Com papel e caneta, ábacos e bate-papos que usam a boca e não os dedos?

Há! Acabei de descobrir outro software dos mesmos criadores do freedom. É o anti-social (http://anti-social.cc/), que impede que você acesse redes sociais em seu computador durante determinado período de tempo e custa U$15. Tirem suas próprias conclusões sobre esses programas enquanto vou dar uma olhada no meu Orkut.